Nil Junior

Para minha Afogados da Ingazeira

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Para minha Afogados da Ingazeira

Por Magno Martins, jornalista afogadense 

Meu berço, Afogados da Ingazeira, no Sertão do Pajeú, a 386 km do Recife, completa, hoje, 115 anos do seu grito de libertação de Ingazeira, de quem era distrito. Há muito, não passava em seu solo o seu aniversário. Estou na cidade com minha Nayla e meus filhos Magno Filho e João Pedro, juntando o útil com o agradável: a Expoagro, exposição agropecuária, e as festividades da emancipação.

Saí daqui garoto como todo filho de terras de vidas secas, num pau de arara. Recife me recebeu de braços abertos, me formei em Jornalismo pela Unicap e fiz outro voo mais ousado: bati asas rumo ao Distrito Federal. Em Brasília, minha terceira pátria, me firmei profissionalmente: passei por várias redações, do Correio Braziliense ao Globo. Quinze anos de batente! Virei candango, presidi o Comitê de Imprensa da Câmara dos Deputados e, como repórter, cobri todos os episódios históricos do País, do início da redemocratização, em 85, até a chegada de Lula ao poder.

Cobri o Governo Sarney, a primeira eleição presidencial entre Lula x Collor, o impeachment de Collor, o Governo Itamar Franco, o Plano Real, os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, a Constituinte, os dois mandatos de Lula, o Governo Dilma e o seu impeachment.

Entre as viagens internacionais, mais de 40 – conheço parte da Europa, cheguei até os países escandinavos, um pouco dos Estados Unidos e toda América do Sul. Com o presidente Lula, passei 10 dias em Cuba, com direito a participar de uma coletiva com Fidel Castro.

Já escrevi 12 livros, entre eles, Histórias de Repórter, no qual conto os bastidores que vivi em grandes e históricas coberturas no plano nacional. Com o tempo, virei cidadão de mais de 70 dos 184 municípios de Pernambuco, inclusive Recife, minha segunda pátria.

Mas a primeira pátria, a aniversariante de hoje, é um retrato na parede que dói muito, replicando Carlos Drumond de Andrade. Todo lugar de nascença que a gente deixa para trás em busca de um novo eldorado é revestido com um ar de nostalgia. Vez por outra, visito Afogados da Ingazeira em sonhos, desde que perdi meus pais, meus tesouros de ouro Gastão e Margarida.

Visita de sonhos é aperto de saudade. Quando a saudade chega feito tempestade de ventos uivantes, o coração sofre um ataque, mas fica protegido por saber que o tempo é curto para o meu retorno. Retorno à minha infância. Tenho um amor por minha terra, tenho uma história vivida por aqui, de altos e baixos, dores e alegrias.

Ao passar por ruas que andei descalço, me lembro da minha infância e da minha adolescência, de todas as pessoas que conheci, de todos os lugares que frequentei. É incrível como algumas lembranças permanecem intactas.

Chego a me emocionar quando vejo tudo o que deixei para trás, mas, ao mesmo tempo, sou grato por tudo o que vivi quando decidi começar uma nova etapa da minha vida. É assim mesmo. Para nos encontrarmos, precisamos, muitos vezes, nos perder primeiro.

É impossível esquecer o lugar em que crescemos, as pessoas que fizeram parte da nossa vida. Os caminhos mudam, é preciso seguir em frente, mas reviver algumas memórias é muito bom. Apesar de amar esse lugar, sei que nada disso me pertence mais.

Meu lugar não é mais aqui. É bom relembrar, mas amor de terra-mãe é para sempre.

Fonte: nilljunior.com.br